Impacto nas Contratações
A legislação que endureceu a fiscalização e as punições sobre o piso mínimo do frete rodoviário de cargas, implementada por medida provisória no início de 2026 e aprovada pelo Congresso em julho, tem gerado efeitos inesperados para os caminhoneiros autônomos. Contrariando o objetivo inicial de aumentar os ganhos da categoria, levantamentos de mercado e dados operacionais indicam uma redução nas contratações de motoristas independentes e uma migração dos fretes para grandes transportadoras.
Resultados da Pesquisa Frete.com
Uma pesquisa realizada pela plataforma Frete.com, com a participação de mais de 700 motoristas autônomos, aponta um cenário desfavorável. Apenas 8% dos entrevistados aprovam a atual tabela de frete mínimo. Mais preocupante, 62% da categoria relatam uma diminuição no volume de trabalho disponível, e 64% afirmam ter sofrido uma queda no faturamento mensal.
Federico Vega, CEO e fundador da Frete.com, explicou que a análise da plataforma, que abrange milhões de transações, confirmou as queixas dos motoristas. “Começamos a escutar os caminhoneiros reclamando que não tem cargas no mercado, que está ruim, aí fomos ver o que estava acontecendo. Olhamos na plataforma, fizemos um estudo dentro das milhões de transações que acontecem ali, e depois fizemos uma pesquisa com eles,” disse Vega.
Distorção na Tabela e Vantagens para Grandes Empresas
A análise do volume geral de transporte de mercadorias nas rodovias não mostrou diminuição. O que ocorreu foi uma transferência de contratos para veículos de maior porte, geralmente pertencentes a frotas de empresas. Essa distorção se deve ao fato de a tabela oficial basear os valores no número de eixos do veículo e na distância, e não no peso da carga. Como resultado, conjuntos maiores tornaram-se proporcionalmente mais baratos por tonelada transportada. Por exemplo, em uma rota de 1.000 km, o frete mínimo por tonelada para um rodotrem de nove eixos é de cerca de R$ 145, enquanto para uma carreta convencional, mais utilizada por autônomos, o valor sobe para R$ 245 por tonelada.
Além da diferença tarifária, a contratação de empresas de transporte oferece vantagens fiscais em comparação com serviços prestados por pessoas físicas. Dados de quatro grandes operadoras do agronegócio indicam que a participação dos autônomos no transporte de safras caiu de 24% em 2025 para 14% em 2026. No mesmo período, a presença de carretas no setor agrícola diminuiu de 68% para 44%.
Perda de Negociação e Desânimo na Categoria
Outro ponto crítico levantado pelos caminhoneiros é a perda da margem de negociação. Com a aplicação rigorosa de multas por descumprimento, que podem atingir R$ 1 milhão, o valor do piso mínimo de frete passou a ser visto como um teto. “Os caminhoneiros também disseram na pesquisa que o piso virou um teto. As transportadoras não estão usando o valor como um mínimo, mas como um preço tabelado. O dono da carga fala ‘vou te pagar o preço da tabela’, não tem mais negociação, e antes tinha,” ressalta Federico Vega.
Diante da queda na receita e da menor oferta de fretes, a pesquisa aponta um crescente desânimo na categoria. “Um de cada cinco caminhoneiros, 20% dos motoristas, já falam em sair do mercado. Em virar Uber, vender o caminhão. Então no longo prazo provavelmente teremos um impacto na quantidade de autônomos,” complementa o CEO.
A Frete.com, fundada em 2013, conecta cerca de 900 mil caminhoneiros a 25 mil empresas contratantes e movimenta R$ 55 bilhões em fretes anualmente. Apesar do impacto da nova lei sobre os autônomos, a empresa mantém seus planos de expansão e prevê uma oferta pública inicial de ações (IPO) nos Estados Unidos em 2028.
Fonte: blogdocaminhoneiro.com

